Viagem de resistência e recursos literários nas obras de Conceição Evaristo

O segundo dia do seminário “Brazilian Days” em 30 de setembro de 2016, estava reservado para a palestrante Sara Brandelleiro da Universidade de Leiden falar sobre a autora e poetisa brasileira Conceição Evaristo. 

Evaristo nasceu e foi criada em uma das favelas mais pobres de Belo Horizonte em 1946. Mesmo assim, conseguiu formar-se no ensino médio e depois de mudar-se para o Rio de Janeiro, tornou-se professora primária. No final dos anos 70 formou se em Letras e posteriormente fez mestrado em Literatura. Há apenas três anos, Evaristo terminou o doutorado em Literatura Comparada*. Em novembro deste ano, Evaristo comemorará seu aniversário de 70 anos, e, embora sua carreira literária tenha se iniciada há mais de um quarto de uma década, foi apenas nestes últimos dez anos que ela conseguiu o reconhecimento nacional e internacional.

Existem vários caminhos para entender e interpretar o conteúdo e os temas recorrentes na produção literária da autora. Para começar, a própria infância e vivência dela ao nascer e crescer numa comunidade negra e pobre, onde as mulheres da família, isto é, sua mãe e suas tias mantiveram viva a tradição de contar histórias, um costume que elas tinham herdado por gerações. Evaristo e seus irmãos aprenderam a ouvir e a recontar estas histórias, e com o tempo, a inventar suas próprias histórias a partir de imagens, desenhos ou fotos recortados de revistas e livros de segunda-mão.
A outra forte memória da infância de Evaristo era que o trabalho mal pago dominava a vida das mulheres da familia. Sem educação ou estudo, suas opções se retringiam a trabalhar como empregadas domésticas, faxineiras ou babás, espelhando e repetindo assim a condição das gerações passadas quando suas mães e avós eram escravas da casa grande, tendo que lavar e cozinhar para os senhores e cuidar dos seus filhos.

Essa experiência e memória individuais e coletivas da pobreza, da condição de mulher, da ancestralidade negra, da diaspora e da escravidão foram expressas por Evaristo numa palavra só, que é a sua “Escrevivência” – um conceito que une as muitas camadas e influências que compõem a escrita e suas obras.  Além de contos, artigos e dois romances, Evaristo publicou recentemente uma coleção de poemas chamada “Poemas de Recordação”. Embora seja impossível reproduzir aqui neste blog a interpretação detalhada e sofisticada de alguns destes poemas que a palestrante Sara Brandelleiro fez durante sua palestra, trazemos para o leitor um destes poemas como exemplo do tipo de poesia e “escrevivência” forte e densa da Conceição Evaristo:

Recordar é preciso.

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.


Embora já existam traduções de alguns dos contos de Evaristo, é mas difícil encontrar  uma tradução official dos seus poemas. Porém é possível encontrar trabalhos sobre o autor na internet que contém traduções, como nos seguintes links:




Escrito por Maria Ulsig

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